Thursday, July 4, 2019

O MUNDO PRECISA DE VILÃS


O MUNDO PRECISA DE VILÃS

Quem sabe dos dias ferozes? Talvez os pobres. Especialmente nas manhãs. Quando se abre o armário ou frigorifico e ressacados de algum sonho bom espera-se encontrar pelo menos mais do que um pacote de leite e condimentos quase a passar o prazo. Helena prepara dois pratos de cereais com o último pacote de leite que resta e aquece café. David arrasta-se, estremunhado pela cozinha. Helena beija-lhe a testa. David sorri timidamente e senta-se na cozinha ainda mal alumiada pela luz do dia.

Helena faz-lhe perguntas rotineiras sobre a escola, se estudou para o teste que tem hoje e se fez os tpc’s. A conversa dura pouco tempo. O silêncio domina todas as manhãs. Tem sido assim há muitos meses, desde que Helena foi despedida do cabeleireiro onde trabalhava. As dificuldades financeiras ergueram uma barreira invisível entre eles.

David coloca a mochila nas costas como se esta tivesse o peso do mundo e dá um beijo tímido na bochecha de Helena que já abrira o jornal. David sai e Helena suspira e vasculha os classificados como tantas outras manhãs. Sublinha, rabisca, sublinha, rabisca.

Liga o computador que leva um ou dois séculos a arrancar e procura nos websites habituais. Manda o seu cv actualizado e com fotografia para várias agências, mas dizem-lhe sempre variantes do mesmo. Ela sabe que ocultam a verdadeira razão. Essa é que ela está velha. Imprestável, segundo parece aos olhos da sociedade. O seu tempo já passou há muito. Helena olha-se então espelho, aos seus olhos é realmente feia e além do mais pouco atraente. Há muito que deixou de usar maquilhagem. Para quê? Aos olhos de uma narradora distante, Helena tem o chamado je ne sais quoi, a sua pele é macia apesar da idade, imune a rugas, tem uma tez a caminhar para a cor de oliveira, olhos castanhos claros e um cabelo que é ondulante e rebelde. Cor: castanho como um tronco sadio de árvore.

Mas Helena já não se vê assim. Helena já nem se vê como mulher. É complicado dizer como Helena se vê e se sente, mas roça o negativismo e a tragédia. Helena é a mulher que foi forte em tempos de guerra e agora é uma estátua sem braços e sem metade do nariz. 
Helena come arroz com atum e senta-se no sofá. Faz zapping. Depara-se com o clássico de Arthur Penn de 1967, Bonnie & Clyde. Sempre gostou de filmes clássicos. Os blockbusters de hoje em dia pouco ou nada lhe dizem. Também não é como se tivesse dinheiro para ir ao cinema, mas por vezes, David traz da escola uns quantos dvd’s pirateados que coloca no pc e assistem a algumas películas. David gosta muito de filmes de super-heróis. O seu poder, confidenciou-lhe, mas com orgulho, seria um semelhante ao de Wolverine, saras as feridas em tempo record. Helena não sabe bem quem é o Wolverine, mas parece-lhe um bom poder e um que lhe ia dar jeito. Mas não sabe se as feridas são físicas ou psicológicas.

Helena se fosse super-heroína, seria invisível. Dar-lhe ia jeito para arranjar comida e outras coisas para o David. A apoteose do filme com o tiroteio épico que tirou a vida a Bonnie e a Clyde fez com que Helena escondesse a cara parcialmente na almofada.

A violência nos filmes sempre a incomodou, mas havia algo na vida desses dois bandidos que ela admirava. Talvez viverem sem rei nem lei.  Sonhou segundos com um Clyde mas cedo apercebeu-se que estava sozinha e que não precisava de homem algum.

Adormeceu no sofá. Acontecia-lhe frequentemente por estar sempre com poucas reservas de energia. Sonhou. Estava num prado verde com uma pistola na mão e ao longe vislumbrou uma sombra numa árvore alta e frondosa, a única do monte. Aproximou-se cautelosa. A sombra era um homem. Mais um cadáver, com os olhos bicados por pássaros e então eram dois globos oculares parcialmente comidos. Helena lembra-se de gritar, mas nenhum som saía da sua garganta, entrou então em pânico e quando acordou tinha duas marcas negras distintas nos braços e uma dor na região do baço.

Helena saiu para ir buscar David à escola. Observou à distância, David a interagir com uns colegas. Ouviu uma conversa com um deles que lhe trouxe arrepios à espinha e vergonha escarlate na face. Era sobre uns ténis. Uns míseros ténis. O colega gabava-se de ter uns ténis assim e assado, David olhava com humildade constrangedora para os pés do amigo. 

Helena sentiu-se mal. Como se também ela estivesse descalça, pois sabia que era assim que o seu filho se estaria a sentir. Helena sabia que não podia continuar assim. As coisas tinham de mudar.

David viu-a, despediu-se dos colegas e caminhou na direcção de Helena. Caminharam em silêncio, mas Helena reparou que David ia olhando para os seus ténis de vez em vez.

Ao lanche, comeram torradas e beberam um copo de leite cada um. David foi logo para o quarto. Talvez ler, talvez deitar-se na cama a imaginar cenários próprios de um rapaz de 10 anos, Helena só poderia supor. E Helena lavou a louça, torturando-se sobre o que poderia fazer para o jantar. Seria atum novamente.

Helena olha para as contas por pagar, todas com aviso de corte. Electricidade, gás, todos a ameaçam.

Helena teria de fazer alguma coisa e seria amanhã. Nem Deus ou Satanás a vão parar.
Helena corta alguns tecidos negros e coloca-os na cara. Coloca também uns óculos escuros todos negros. Por alguma razão e depois de anos e anos, decide colocar uma sombra também ela negra à volta dos olhos. Toda vestida de preto, passeia-a pelo quarto. Sente-se com menos 20 anos em cima.
Amanhã seria um novo dia. Menos cheio de silêncio. Menos cheio de tristeza.

David sai como de costume com a cauda do silêncio a persegui-lo.

Helena faz a sua primeira compra do mês numa loja de brinquedos. Apesar de ser de brincadeira, Helena sente-se poderosa e imponente quando a segura na mão e a aponta ao espelho. Uma pistola de brincar, mas que parece tão real. Tão real.

Helena veste-se toda de preto e coloca o brinquedo na mala. É a primeira vez de há muito tempo que vai pegar no seu carro quase calhambeque. Tem até de esperar que o carro aqueça o suficiente para pegar. Dirige até uma mercearia distante de sua casa. A rua está pouco ou quase nada movimentada, mas cautelosa, espera até que ninguém se aviste na rua.

Aponta a pistola a uma funcionária aterrorizada. É um assalto, abre a caixa e já, olha que eu disparo. Vá, rápido. A funcionária mete as notas apressadamente dentro de um saco que Helena lhe entrega. QUIETA, NÃO TE MEXAS. Helena rouba também alguns artigos de mercearia. Helena sai a correr e entra no carro. Arranca rapidamente.

O suor escorre-lhe pela testa. Arranca a máscara preta e olha-se no retrovisor. Talvez os seus olhos ainda não estejam mortos de todo. Talvez eles vejam algumas coisas mais. 

Sentiu o terror da mulher da mercearia e derivou-lhe um prazer quase sensual. Era ela que tinha o poder, finalmente. Sabia que estava errado, mas algo lhe dizia, alguma parte de si, lhe molestava o corpo para continuar. Havia inquietação. Sentia-se viva.

Acolheu David com um entusiasmo que não sentia há muito. Sentiu o seu filho vivo e vibrante nos seus braços. Jantaram fora pela primeira vez em anos. Restaurante chinês, mas um dos melhores. Garantiu-lhe de forma críptica e algo vaga que as coisas iam melhorar e comeram a refeição toda com pauzinhos apesar de lhes custar e não estarem habituados.

Helena sabia que o dia a seguir era o que contava.
E foi o que contou.
Helena deitou-se para sonhar. E sonhou.

Entrou num banco, disparou, viu metade da orelha do guarda voar na sua direcção e afastou-a com a mão como se segurasse uma raquete, espetou uma faca na garganta do guarda até o seu sangue espirrar em fonte para dentro do seu nariz e boca. Alvejou tudo o que se mexia, viu alguns ossos deslocados, tripas exuberantemente fora da pele, cerebelos espalhados pelo chão e pedaços de miolos colados nas paredes do santo banco.

Acordou com uma vontade de berrar que se tinha extinguido há muito. Mas sabia que era o seu dia.

Ouviu no carro a música que lhe dava mais coragem que sem sombra de ironia alguma ou subtexto era a American Pie do Don McLean. Colocou a máscara na cara. Era o seu primeiro banco.

Mandou toda a gente encostar-se e pediu para encher os sacos. Era agora. Estava tudo feito. Saiu e ainda chegou a tempo de ouvir o resto da música.

No noticiário, havia o relato sensacionalista de uma viúva negra que assaltava bancos. Helena não se identificava com o que diziam na televisão e pela primeira vez em anos, adormeceu com David no sofá.

Depois de David sair para a escola, Helena guiou até outro banco. Sentia-se invencível. Foi, entrou. Fez a sua rotina habitual. TODOS ENCOSTADOS AO BALCÃO JÁ.

Mas não esperava que um polícia estremunhado que tinha acabado de entrar de serviço entrasse no banco e lhe apontasse a arma às costas. Helena virou-se. O pesado metal contra o peito. A narradora distante quis que ela se safasse, mas era brinquedo contra real.

Há sempre um sonho entre os bandidos, uma praia ou ilha paradisíaca onde podem desfrutar os lucros dos seus crimes, mas para Helena havia apenas uma casa para onde voltar com contas para pagar. E o seu David.

Helena perdeu mas atesta a consciência global que o mundo precisa de vilãs.

CZ
in "Nomes mais ou menos engraçados para o sangue"

Wednesday, May 15, 2019

A Malcolm




Sempre que o corpo bronzeia e fica salgado pelo mar
E há uma bebida ou duas por perto
Há o pensamento do mestre
Sorridente, um pouco trôpego e com uma garrafa de bols na mão

Escreve uma obra-prima tímida por sobre a proa de um barco
Deixa-se navegar até à costa
Apanha um ou dois camarões
É o mais infantil dos homens
No bom sentido

Transcreve todas as cores e sentidos
Na sua barriga
É o melhor amigo dos bêbados/as e marinheiros/as
Escuta

Faz silêncio
Como descreve Deus?
Vi aquela borboleta e então
Sabes
Foi assim

CZ.

In "Tributo" Chiado Editora
Poema dedicado ao escritor Malcolm lowry

Saturday, February 9, 2019

Carta de amor (Ficção)


12 Agosto, 1990

Escrevo-te ainda com os resquícios físicos e psicológicos das horas de insónia que apenas me permitiram dormir duas horas de um sono vigilante, irrequieto e preenchido por sonhos vívidos. Aqueles em que não controlamos as nossas acções, torna-se quase impossível mexer os braços e gritar. Há apenas silêncio. Os berros ficam contidos na garganta. Vi-te através de uma janela cuja vista era a de um castelo em ruínas com as paredes de pedra austera rodeadas por trepadeiras selvagens. Tenho a certeza que me acenaste e a tua cara abeirou-se perigosamente da minha janela. Sei que sonhava. Quando acordei, preparei uma refeição frugal com algum desinteresse. O corpo depois de noites seguidas de insónia sente-se leve e transparente, como se fosse feito não de ossos, músculos e sangue, mas de ectoplasma. Fantasma. A alma encontra-se ainda dispersa e presa nos momentos mais comoventes e intensos do sonho.
Não te culpo inteiramente pelo meu estado ou pela opressão que exerces indirectamente no meu subconsciente, no entanto, continua a ser doloroso e angustiante que só te encontre verdadeiramente em sonhos fugidios e breves nas poucas horas de sono que a insónia me permite. Não tens responsabilidade pelo meu subconsciente te ter assumido como símbolo de um amor puro, inocente e verdadeiro. Imagino os detalhes do teu quotidiano. Até questões de índole prática me interessam substancialmente como a maneira como conduzes, falas com os outros e a maneira como marcas os livros. Os teus movimentos mais banais recrio-os na minha cabeça, desde o simples torrar de uma fatia de pão até à maneira como pegas na chávena de café. Esta é a quinta carta que te escrevo este mês. Ainda não enviei as anteriores, assim como as dos outros meses. Escrevo-te cartas há uns anos. As nossas conversas são sempre pragmáticas, quase que metodicamente ensaiadas por um argumentista megalómano e demasiado restritivo e rigoroso. Explicar em vez de mostrar. Podem dizer-se muitas palavras com o silêncio, mas nós nunca aprendemos ou praticámos isso. Creio que nunca saberás o que sinto verdadeiramente por ti. Desencadearia uma tempestade que nem tu nem eu a conseguiríamos suportar. Restam-me estas palavras e estas cartas. Amanhã será mais um dia, mais uma conversa quase ríspida na sua superficialidade em que apenas peço e desejo interiormente que me olhes e percebas no meu olhar o que não ouso dizer-te por palavras.
Coloco mais esta carta no baú que enterro junto ao sítio especial onde te quis levar um dia, mas nunca o fiz. Já tenho a minha viagem planeada e esta será de facto a minha última carta. Em baixo descrevo as coordenadas para que encontres o baú com todas as cartas. Pode ser que um dia percebas que o meu silêncio era apenas a minha forma de te comunicar o que não podia com palavras.
Silenciosamente tua,

C.

CZ, Janeiro de 2019



in "Três quartos de amor " chiado 

Thursday, January 24, 2019

A JANELA VERMELHA ENQUANTO COMÍAMOS UM GELADO

A JANELA VERMELHA ENQUANTO COMÍAMOS UM GELADO

-Custa viver assim. O coração fica mais pesado, mas a consciência mais limpa.

       Foram as últimas palavras que me disse. As mais ternas e únicas. Por ter sido mulher dura, brava e de poucas palavras dirigidas a mim. Legou-me um reportório de histórias que me contava ao entardecer do dia, depois da lida feita. A água tirada do poço, os animais bem cuidados e a janta na mesa. O meu pai. Algumas saudades tenho. Não muitas porque era pequena quando faleceu. Tinha apenas seis anos. Lembro-me da sua voz grave mas suave e da forma como me espreitava enquanto brincava no berço improvisado.  
     Lembro que me esculpiu um cavalinho de madeira a que muito uso dei, nas minhas aventuras de cavaleira errante em que falava com seres imaginários. Desconhecia a existência dos samurais na altura. Com cavalos bem mais vivaços que o meu e bem ornamentados. Eles, com vestes coloridas e expansivas. Eu sempre no registo de trapos e andrajos. Mas não culpo os meus pais. Deram-me o que lhes foi possível.

     Enterrei assim a minha mãe. Já muito pálida e débil, tornada roxa pelo fantasma da morte. Tinha o meu legado de histórias e uma forte presença ao meu lado que arfava a cada passo meu. Ao meu lado, uma criatura grande e que possuía a força de um grifo mas que andava em quatro patas. Meti o cavalinho de madeira à entrada da minha modesta casa de infância. Pode ser que alguma criança o encontrasse e com ele brincasse.
      ´
     Fiz-me à estrada com o meu grifo fiel de quatro patas. Tinha quatorze anos. Lembrei-me imediatamente de um conjunto rimado.

Quando acaba o mel,
só resta o fel.

     Era assim que me sentia na timidez da pré-adolescência. Nascida antes do advento da bicicleta. Gostaria sim de ter pedalado uma pelos trilhos de amoras com uma companhia sadia e forte encostada a mim, respirando-me no pescoço, apertando-me a cintura. Dar-lhe-ia a mão depois de comermos as amoras que tínhamos colocado nas t-shirts feitas bolsas. Talvez com um movimento afoito e repentino lhe colocasse o braço por cima dos ombros. Seria o meu primeiro pôr-do-sol com alguém.
Mas as coisas não são assim. Isso aconteceu bem depois. Ninguém andava em bicicletas nem usava t-shirts. E o interesse que havia por amoras era meramente para fazer licor.
     
     Talvez seja altura de dizer que sou narradora ambulante. Conto histórias de tradição oral a quem não sabe ler nem escrever. Esta profissão foi-me dada pelos meus pais. O meu pai chegou a ser cancioneiro, trovador e era um eterno apaixonado e não havia mulher que não lhe avivasse o olho. Um problema para a minha mãe que dotada de um carácter muito pouco submisso e bastante tempestuoso o chamava à razão por várias vezes, usando de puxão de orelhas, insultos elaborados e pontapés no baixo ventre quando ele se deixava cair no chão, emborrachado. Mas amavam-se. Mais tarde vim a perceber que era mais um caso de disfuncionalidade marital.

    Lembro-me de ir a aldeias com os meus pais. O cheiro da lenha. O pão acabado de fazer. O som do vinho a jorrar nas canecas de barro e o olhar contente do meu pai. As festas e as romarias. Com as mais belas da aldeia vestidas de branco e a bailar. Os rapazes encostados à parede a observar. As músicas, os cancioneiros com quem o meu pai brigava mas depois tocava. Depois o silêncio. Ouviam-se os rumores do vento e os sinos longínquos da capela. Sentavam-se todos em círculo e os meus pais davam as mãos. Sentados lado a lado. Partilhavam o seu imaginário.
Só que agora estou sozinha. Tenho apenas o meu grifo de quatro patas, Trovão. É assim que lhe chamo e é a esse nome que ele responde. Sei que é imponente e vai defender-me de homens com cabeça desfeita em vilanias. O que me preocupa é falhar as histórias. Contá-las mal. Não entoar bem os suspiros, por exemplo, de Abelardo e Heloísa.
A floresta que percorremos era sinuosa e cheia de árvores deformadas, que de tão encurvadas pareciam contar segredos. Detive-me um pouco para saber se queriam dizer algo. Sempre fui uma mística inata sem qualquer crença dogmática ou verbalizada mas com um profundo sentimento de pertença. O Trovão olhou-me e voltou atrás. Sempre me será fiel, disso tenho a certeza.

     As árvores nada me disseram mas passei-lhes a mão no tronco rugoso. Nos meus dedos escorreram pequenos laivos de seiva que levei aos lábios porque tinha fome e sede. Foi quente e viscoso. Dei também ao Trovão que se afastou, não gostou.
Tinha apenas um cantil pequeno cheio de água e metade de um pão que partilhei com Trovão. Teremos de encontrar um albergue e com sorte sobreviver aos salteadores da noite. Tinha uma fita roxa no pulso que a minha mãe me colocou ao nascer. E ao crescer disse-me que ninguém me faria mal enquanto usasse a fita. Que apesar de não sermos de sangue azul tínhamos uma qualidade que nos salvava dos salteadores. A capacidade de encantar e entreter. Mas a fitinha roxa, não me dava segurança e estava assustada na mesma.

    Encostei a cabeça ao pescoço forte e musculado do Trovão. Também ele tinha medo e estava inquieto. Mas de patas firmes no chão, ofereceu-me algum sossego. Sentia a falta da minha mãe. Ausência precoce. O sopro débil da sua última respiração nos meus cabelos. A sua mão ossuda segurando-me o pulso. Marcando-me ainda mais as veias. O sangue pulsando forte. A culpa de não lhe ter dirigido palavras mais gentis. Mas tinha quatorze anos, era rebelde e esfolava os joelhos todos os dias a ir ao poço. As marcas dos seus dedos no meu pulso, talvez já invisíveis, mas que ainda via. A fita roxa que ressaltava por entre as marcas e veias azuis.
Abracei-me ao Trovão. Também a respiração dele estava irregular. Ele sabia. Estávamos sozinhos. E assim nos deitámos por sob um céu de negrume acentuado e pontuado por estrelas aqui e ali. Mortos de fome. Ouvi ainda a ladainha que a minha mãe me cantava para adormecer.

Pastor que guardas as ovelhas
Que farás tu
Quando o lobo que as acerca
Fores tu

    E depois sonhei. Ah. Os sonhos eram sempre bons. Eram em cima de jangadas a atravessar rios imensos que nunca vi enquanto acordada. Era sempre com alguém a dar-me a mão. Pescávamos um peixe delicioso. E era chato porque o víamos morrer e sentia os seus últimos pulsares nas nossas mãos unidas. Mas depois quando o comíamos na fogueira, via o cintilar das fagulhas misturadas com o fervor curioso do seu olhar e as coisas aconteciam. Rapidamente. Talvez fosse uma consequência da minha pós-adolescência, uma que ainda não tinha realmente vivido mas que já fazia sentir parte de mim. Provavelmente, era precoce e sempre fui nestas matérias do amor que conflui só para uma fonte, só para um rosto. Parecem eternidades vividas sem nunca tocar ou sentir. Apenas uma miragem. Diria até uma alucinação quando me dei depois aos vícios das bebidas espirituosas e da resina mágica. Mas nessa altura não conhecia esses escapismos. 

    Era só eu e o meu sono. E a sua figura ligeiramente arqueada sobre mim e depois deitada por completo. O passar quase musical dos meus dedos por entre os seus cabelos, numa desajeitada mas sentida tentativa de manter um amor que estava condenado à partida.
E era assim que acordava. Fisicamente exausta, com a boca seca e com estranhos arranhões nos braços e nas costas. Um amor que me parecia real ao sonhar mas que se desvanecia ao acordar. É claro que o esqueceria logo depois. Tinha de pensar no que comer e no que beber. Mas a sua presença mantinha-se ao meu lado, invisível, por vezes, opressiva como se de uma maldição se tratasse.
Tanto andámos que encontrámos uma taberna. Mostrei à matrona do bar que era de poucas palavras a minha fita roxa.

- Olha uma pequenina que conta histórias. Perdeu a mamã?

Afinal falava palavras e de pouca fiança.

- Partiu. Sou só eu e o meu cão.

- Animação só há à noite.

- Posso ajudar por aqui, entretanto.

- Faz-me falta umas mãos para lavar uns pratos e canecas.

- Sou eu, então.

- Sabes cantar?

- Só se a necessidade ditar.

- Ai, vai ditar sim. Mas agora vai lá lavar os pratos.

- E o Trovão?

- Quem?

- O meu cão?

- Eu dou-lhe de comer. Vai, menina. Não me atrapalhes.

     Foi assim que lavei pratos. Vestígios de gordura de carne de caça e pedaços de batata já a dar para o verde. Era uma torre assimétrica que lavei com cuidado mas rapidez.
Reparei que no balcão estava uma caneca de estanho ainda cheia de cerveja. Nunca tinha experimentado e tive uma natural curiosidade. Sorvi-a. Escorreu como água. Tinha sede. O sabor de estanho mesclado com o de cereais misturou-se na minha saliva. Bebi um pouco mais. Senti a cabeça distender-se um pouco do resto do corpo. Estranha sensação de suavidade e leveza. Quando a matrona irrompeu pela cozinha com as suas diretivas agressivas, pouco mais senti que uma ligeira picada de mosquito.
Agradada com o meu trabalho, agarrou-me pela cintura como se me conhecesse desde sempre, arrastou-me para a sala principal e deixando-me cair numa das cadeiras.

- Agora conta-me uma história.

- Sou pouco experiente ainda.

    A matrona ficou visivelmente enraivecida. Pegou numa panela para me acertar com ela na cabeça. O Trovão ladrou, protector.

    Com medo de levar pauladas infinitas e assim findar-se a minha vida que se revelava tão inútil e patética. Improvisei. Não me lembrava de nenhuma das histórias dos meus pais. A ameaça da morte tem destas coisas.

- Ah, a filha do moleiro!

   A matrona pareceu acalmar-se e sentou-se novamente. Pareceu até recuperar alguma bonomia servindo-me um copo de vinho.

- Prefiro a outra coisa. – arrisquei.

- Cerveja?

- Sim.

Olhou-me de viés mas lá cedeu e encheu-me o copo.

- Agora conta.

- Havia em certa aldeia uma moça que era bastante vistosa e era um regalo para os olhos de todos…

- Era meretriz? – interrompeu de forma brusca a matrona

- Não, era uma donzela.

- Ah, assim gosto mais- E entusiasmada bebeu uma taça inteira de vinho de um gole só. 
Impressionante.

    Eu bebi de forma mais precavida porque já sabia o que a casa gastava e tinha ajudado a carregar o meu pai e os amigos dele para dentro de casa, os seus corpos bastantes flácidos mas ao mesmo tempo elásticos. Não muito mortos mas também já não muitos vivos, como as flores elegantes, altas e esquisitas que veria no Jardim da Estrela mais tarde.

- Então ela era uma moça bastante modesta mas bonita. Quando assim acontece há muitos pretendentes. Ela rejeitou-os todos nos bailes da aldeia. 

- Fez ela bem. Os homens são cá uma praga- confidenciou a Matrona enquanto espirrava vinho pelos dentes.

 - Pois claro. Uma noite estava tão insatisfeita e chateada que saiu do baile a correr. 

     Meteu-se pelo meio da floresta e encostou-se a um tronco de árvore. Depois abraçou-o. Soluçando e chorando. O seu pranto parecia vir das estranhas e nunca mais acabar. Soluços que vinham das tripas. Um som que ecoou por toda a floresta. Lamentável. 

    Passou então um cavaleiro que atraído pelo pranto de uma donzela possivelmente em situação de perigo se acercou rapidamente. Ao vê-la, assim naquele estado de fragilidade, apaixonou-se imediatamente. Desceu do cavalo e com palavras doces antes de se aproximar, tentou tranquiliza-la. A moça ao ver o elegante cavaleiro ficou bastante dócil e sorriu. Algo no seu rosto lhe transmitia confiança, por isso, deixou que se acercasse dela. Sorriram. Nos seus olhos transmitiu-se aquela fagulha do amor-perfeito, direito e ajuizado. Então abraçaram-se por baixo dos ramos já algo desgastados de um salgueiro. 
Foi então que ela sentiu. Ao afagar-lhe a nuca, havia um outro rosto, olhos que se mantinham fechados mas sustidos de desejo e uns lábios que só seriam nutridos por um beijo.

Gritou então de horror.

- Compreendo que te assustes! Mas deixa-me explicar!

- Não!- gritou a donzela, cobrindo a boca.

     E ele virou-se. Havia uma outra cara. Muito mais deformada, longe de ser bela mas que lhe lançava um olhar puro e límpido.

O rosto esbelto encarou-a novamente.

- É que nasci assim.  Nunca ninguém me aceitou. Ando a cavalo há muitos anos. Gosto de ti.

- Mas és um monstro – disferiu sem pensar a donzela

- Ouvi o teu pranto. Sei que sofres. Eu também.
    A donzela olhou para baixo, ensimesmada, sem saber o que responder.
- Não sou um monstro. Sou um nobre cavaleiro com duas faces. Uma feita dos horrores da guerra que não consigo eliminar e esta outra, a minha, que sorri para ti com os olhos. Não sou poeta nem trovador. Nem sei fazer rimas como deve ser. Também não sei bailar. Mas se aceitas a minha mão é esta que ta dou para sempre.

    A donzela ficou reticente. Ouviu depois os rumores que vinham da aldeia, dos que procuravam por ela, os moços sabichões mas chatos, os sem instrução e rudes, todos a procuravam. Então num instinto que mais tarde ditou o seu destino, deixou-se enlaçar pelo cavaleiro e partiu. Foram bastante infelizes no começo mas depois a coisa ajustou-se e tiveram filhos. Uns com uma só cara, outros com duas mas tiveram muitos.

- Que bonito. – suspirou a matrona já com os beiços cobertos de vinho.

- Sim, são assim as histórias de amor.

- Sabes, tinha pensado em açoitar-te a noite toda mas agora penso duas vezes. Bonita 
história essa que contaste. Agora vai limpar o chão.

    E assim foi. Limpei o chão da taberna. Fi-lo com esmero e consideração mas em cada estocada pensava num futuro melhor. Um em que teria alguém com quem compartilhar qualquer coisa que fosse, por mais mesquinho que parecesse, como uma lata de sardinhas em óleo. Qualquer coisa. Alguém apreciaria o trejeito esquisito do meu nariz e as sardas ténues à sua volta. Os meus braços fortes mas pontuados de sinais e a minha maneira esquisita de falar um pouco à sopinha de massa. Tudo isso envolvia um romantismo que ainda só tinha fruído em mim nos sonhos. Por isso, continuei a limpar.

    Quando a noite caiu e a taberna encheu. Vi os homens sentados. Uns com cartas. Uns com copos. Uns com copos e cartas. Aproveitei a matrona estar ocupada a dar cantiga a um freguês para ver do Trovão. Estava deitado, pacificamente e bem alimentado sob um céu generosamente estrelado. Era uma daquelas noites de verão. Pesava-me o luto e a mágoa mas imaginava as estrelas lá em cima, cintilantes, imunes à podridão cá de baixo, e essas estrelas eram como os meus antepassados que ajudavam a traçar o meu destino. Narrativamente, sei que mais tarde se falará em Aliens. Por mim, podiam vir agora que para mim não fazia diferença. Ia com eles na nave ou seria aniquilada logo ali, ora…seria igual. Mas o céu era bonito de ver e o Trovão agradável de olhar até a matrona me chamar para entreter os bêbados e os devassos.

     Fui arrastada até uma cadeira e sem grandes hipóteses, lembrei-me de uma história que a minha mãe me contou e que muito me marcou. Fez-se silêncio no meio da algazarra boémia da taberna. Os brutos quiseram ouviram as palavras entrelaçadas num contexto em que se fizesse história, então eu fiz a vontade.

     Contei a história do escorpião na tenda. Muito simples. Estrutura clássica de três actos. Ahmed, nome vulgar no mundo arábico, era um nómada. Vendia especiarias, tapetes e outras coisas que trazia dos bazares dos centros da cidade. Arrastava-se pelas comunidades nómadas. Fazia amizades. Ficava para os jantares e dormia nas tendas faustuosas (para os seus critérios). Chegou a uma aldeia nómada em que se festejava as pré-celebrações de um casamento. A ocasião era solene mas conseguiu falar com um dos líderes da tribo que o convidou para ficar e assistir à cerimónia. Ahmed vendeu alguns produtos e munindo-se de umas chávenas de chá de rosas servidas por belas moças, deixou-se ficar. Nenhuma o deslumbrou. Já tinha visto bem melhores na cidade. Só que...

    Quando viu a noiva ficou instantaneamente enamorado ou enfeitiçado, por vezes, não se sabe a diferença. É só aquele sentimento em que, bem, a cabeça fica mais leve e sentimos o corpo flutuar, afastando-se, como se nunca tivesse sido nosso, pois, foi isso. Ele sentiu em si, depois de descer à terra, uma forte paixão. Era ela e só ela. Pois, a noiva olhou-o fugazmente. Ele susteve o olhar,. ela voltou a olhá-lo e aí foi duradouro. Aqueles olhares que depois aprenderei a estudar e analisar em filmes de Hollywood. Foi recíproco. 

    Ele entendeu. E ela também. Desse segundo em diante só interessavam eles. E foi assim que se teceu a teia. A que inconscientemente já tinham na cabeça mas que por justos valores e moralidade ainda não tinham assumido.

    A festa decorreu larga. Muita música e dança. Comida e bebida. O costume. Ahmed não tirava os olhos da noiva, que por acaso se chamava Aaliyah. E ela dançava com o noivo prometido que tinha um outro nome qualquer que Ahmed não quis sequer reter. 

    Imaginou-se a chegar por trás do homem que para ele era um rato e espetar-lhe logo uma adaga no pescoço. Mas em vez disso, serviu-se de tâmaras e observou-os dançar.

    Traçou um plano na sua cabeça já alimentada pelo raki e vinho. E esperou apenas que as festividades amainassem. Como era um homem de grandes e pequenos recursos, não lhe foi complicado arranjar um escorpião que manteve nas suas mãos num exercício de sangue-frio doloroso. Enquanto a noiva e o noivo dançavam, o que para eles era a primeira de muitas danças mas para Ahmed a profética e última, escapuliu-se para a tenda nupcial e colocou o escorpião, carinhosamente debaixo da almofada.

    Pediu mais raki, vinho e tâmaras. Trocou alguns olhares lânguidos com Aaliyah. E teve a ousadia de lhe sorrir. Levantando-lhe o copo, oferecendo-lhe um brinde invisível. A festa acabou. Ahmed agradeceu e despediu-se de todos. Trocou mais um olhar fugaz com Aaliyah que de seguida entrou na tenda com o noivo. De manhã. Houve gritos. Gemidos. Mas Ahmed já estava bem longe. Nómada letrado e inteligente o suficiente para não se apanhar nas teias do amor. Talvez um dos primeiros serial-killers do mundo árabe ou uma pessoa bem informada…quem poderá julgar.
    
    O silêncio reinou na taberna depois da narrativa. Foi quebrado por um homem com compostura e pose de viking que bateu palmas fortemente e gritou “bravo!”. Os outros homens olharam-no sem saber se copiar o seu entusiasmo ou permanecer na inércia. Mas copiaram para evitar pancadaria. Vi-me assim numa mesa só de homens que batiam com as canecas na mesa, as espumas das suas cervejas a esvoaçar pelo ar e ar e ar. Sorri daquela forma pouco convincente, fiz vénia e abandonei a mesa. A matrona abraçou-me. O meu nariz perigosamente perto dos seus seios. Roçando. Não gostei.

- Ficas aqui para sempre. És boa!

- Não, na realidade. Não posso ficar.

- Porquê? Vais para onde?

- Já leu a Divina Comédia?

- O que é isso? Estás com desaforos comigo?

- Não. N’A Divina Comédia, Dante vai à procura da sua Beatriz. Que é isso que vou 
fazer.

- Quem é a Beatriz?

- Ninguém sabe. A beleza é essa. Olhe, vou indo. Pague-me só pelo trabalho de hoje.

    A matrona não ficou muito satisfeita mas eu e o Trovão partimos. É claro que não há Beatriz nem quero atravessar os nove círculos do inferno mas tudo é melhor que ficar numa taberna como escrava só por ter fitinha roxa. Mais tarde vão condenar-me por outras coisas mais. Judaísmo. Lesbianismo. Liberalismo. Intelectualismo. Mas por enquanto, tenho só quatorze anos e o meu cão Trovão. Seguimos as estrelas. E vamos por aí.

    O caminho a seguir não é o mais largo. É sempre o mais tortuoso e espinhoso. As lágrimas que chorei, salgadas e ácidas traçaram linhas sinuosas ao longo do meu rosto queimado pelo sol. Ouvi música. Reconheci. Trovadores. Daqueles ambulantes que cantam sobre amores perdidos e afins. Segui, silenciosa com o Trovão. Espreitei. Era um grupo de três. Dois homens e uma mulher. Cantavam e tocavam à luz de uma fogueira. Assavam um animal e bebiam em canecas de latão, o que me pareceu ser vinho.  Os homens cantavam o que parecia ser uma música de amor sobre uma actriz de teatro e a mulher tocava alaúde. Intrometi-me, ou melhor foi mais o Trovão que irrompeu pelo acampamento. Eles ficaram surpreendidos e pegaram em coisas sem nada a ver para se defenderem. Quando me viram, relaxaram. A mulher pousou o alaúde e caminhou na minha direcção. Deixei que me tocasse. Chegou até a cheirar-me. Depois apertou-me a mão e eu, por alguma razão inexplicável, apertei-a de volta. E ela sorriu. Depois deu-me uns safanões nas costas.

 - Esta é das nossas – anunciou.

     Enterrei-me numa cadeira improvisada.

- O que achas desta? – perguntou um dos homens

    E começou a tocar.

    Ai, achei super medíocre, mas se disser isso, ainda me cortam a garganta com a faca do presunto, por isso, deixei-me a ouvir. Podia ser que ficasse melhor. Não ficou. Mas iria ouvir coisas bem piores no futuro. Jovens quase desnudadas a cantar letras ridículas e frívolas sob batidas derivativas e feias. Sim, ia sofrer muito mais, mas na altura não sabia ainda. Sabia que podia morrer com uma faca espetada na garganta então limitei-me a sorrir e a fazer o sinal de “ok”.

- Gostaste mesmo? Diz a verdade! Não mintas!

    Quando me acusam de ser possuída pela sombra da mentira, nada me resta, se não dizer a verdade.

- Eu digo a verdade. Mas deixam o meu cão em paz?

   Entreolharam-se como bárbaros.

- Como se chama o teu cão?

- Trovão. Eu digo a verdade se não lhe fizerem nada de mal. O que me fizerem a mim, pouco me importa.

Segredaram entre eles. A mulher empunhou a faca e aproximou-se de mim. Sentou-se ao meu lado.

- Então diz lá.

- Sendo franca, musicalmente é muito medíocre e a letra é ridícula. Quem é essa actriz? É alguma diva? Lamentável. É uma como outra qualquer. Como ela há várias.

    Um dos homens riu.

- Pareces perceber muito de relações humanas.

- Não. Sou órfã.

   Riram-se. Ao menos, podia ser que os entretivesse e não me cortassem a garganta durante a noite.

- Então não gostas.

- Não, senhor, não gosto mesmo.
  
    E a mulher encostou a faca à minha garganta, esborrachando os seus lábios no meu lóbulo.

- Ah, temos aqui alguém que percebe de música.

     Em face da ameaça eminente não pude deixar de retorquir:

- O possível.

- Diz que possível é esse ou corto-te a orelha.

     E sibilou. O que é um sinal que não está ali para brincadeiras.

- Percebo mais que tu.
     
     Não sei onde reuni essa coragem. Ela recuou com a faca na mão mas manteve o olhar psicopata.

- Então canta.

     Olhei para o Trovão que estava contente a mordiscar num osso. Nunca tinha cantado. Só contado histórias. Concentrei-me na cauda do Trovão que batia frenética na terra. Usei como batida. Decidi usar rimas. Apontei para a cauda do Trovão, olharam para mim como se tivesse perdido o juízo.

- Shhhhhhhhh – disse eu – e depois comecei –

     Olha para estes sujeitos

A tentar fazer músicas de amor
Só inspiram terror
Estou a deprimir só de os ouvir
Falam de actrizes de teatro
E depois choram sozinhos no quarto

- Basta! – gritou um dos homens.

     Calei-me. Senti a lâmina de encontro à garganta.

- Não sei que feitiçaria é essa que usaste mas até foi divertido. Faz outra vez.

- Ah, não sei, é de improviso.

     Atiraram-me de encontro a um tojo. E reuniram-se entre si. Segredaram, suspiraram, berraram e cantaram. Ia acabar com uma faca de presunto encostada à garganta. Ia cruzá-la. Sangue ia jorrar. Pingar. A minha boca ia ficar cheia dele. E pensei apenas no Trovão. Sou talvez anormal. Mas ele estava contente, a comer ervas e depois enroscou-se para dormir. Oh raios. Estou sozinha. Vão cortar-me a garganta. Acabou aqui. Sentei-me. Não sei, foi o meu reflexo. É o meu fim…tudo bem, que seja rápido. Chegou a mulher e riu-se. Não gostei. Não foi apaziguador. Sentou-se ao meu lado e achou que seria necessário enterrar a minha cara no seu pescoço. E dessa forma desconfortável, transmitiu-me :

- Não vais morrer hoje. Nem vou matar o teu cão. Vais ser dos nossos. Não vai ser bom? 

– E depois riu-se.

     Ia ser uma bela porcaria mas ao menos não ia morrer. Depois beberam várias garrafas de vinho e eu aninhei-me com o Trovão.
     
     E só pensei “Não, não é assim que termino, vou esperar que adormeçam e cortar-lhes a garganta um por um.”

   Mas não, ainda não tinha crescido tanto no mundo para sentir ódio. Esperei que dormissem para me afastar com o Trovão em pezinhos de lã. Roubei sim, algumas provisões. Nomeadamente cerveja.

     A floresta era húmida e cheia de ramos no chão que faziam tropeçar. Foi complicado. Ouvi Shakespeare a ser recitado. Uma mulher, mesmo bonita, veio ter comigo. Senti o cheiro do pó de arroz e da maquilhagem. Era como se já a conhecesse. E ela sorriu para mim.

- És tão pequenina mas pareces forte.

- Sim – e levantei-me

- Sabes representar?

- Não. Mas sei escrever.

- Podemos precisar de ti. Mas não prometo nada.

- O que achas disto?

- É bonito.

- Conheces a obra de Shakespeare?

- Sim. Li muito.

- Achas que consegues escrever coisas parecidas?

- Sim. (menti)

     Foi uma festa. Partilhei a cerveja que tinha trazido. E o Trovão saltou para conhecer toda a gente. É claro que nunca ia escrever coisas como Shakespeare. Estava só a ganhar tempo. Ia ser mais malta a quem teria de cortar a garganta durante a noite. Que chatice. 

     Esperei que adormecessem. Anda, Trovão, pirámo-nos dali. Sou narradora de histórias e não inventora. Ou como quer que se chame. O caminho continuou tortuoso. Estava preparada para ver cavaleiros sem cabeça, mulheres feitas banshees e bruxas meio queimadas meio vivas, não queria realmente saber. Para ser franca, era-me indiferente. Dormia muito bem na floresta e não temia essas histórias de terror. E mesmo que fossem verdade, que me podiam fazer? Que tentassem. Tinha nascido com muito amor, mas agora sinceramente restava talvez, ódio. E essas criaturas mantinham-se longe. Ouvia-as durante o sono. E sonhava até com elas. Mas sabia que não me podiam afectar. Certa manhã acordei com uma bruxa em cima de mim. Olhei-a e sorri, como uma joaninha voou por cima de mim. Não é que seja ausente de medo, mas sinceramente já não queria saber.

       Os fantasmas do passado e do futuro engalfinharam-se à volta da minha pessoa. Talvez precise do ar do mar. Ela nunca mais vai voltar. E também não quero que volte. A dança frenética e lunática em que me envolveu. O chão estremeceu. Os caninos brilharam e fincaram espaço no pescoço. O cheiro molhado do cabelo. Os olhos castanhos claros depois vermelhos. O chão que nunca parou de estremecer. O começo e morte da paixão. É por isso que talvez já não receio nada. Mesmo. Já vi e cheirei todas as flores do Jardim da Estrela. Eu vou viver para sempre. É a minha maldição. Mas sem ela. Ela nada para mim e eu só olho. E por baixo de água, agarro-lhe a mão. Timidez de adolescente. E ela sorri. Mas eu não posso sorrir nunca. Já sei como vai acabar. Ela vestiu-se à minha frente. Não senti nada. Olhei-a apenas nos olhos. Foi assim. Simples. Foram as minhas memórias antes de adormecer no chão rugoso. O Trovão dormiu perto de mim. Adormeci a pensar que era um caso de amor-ódio. O que me reconfortou. Pensei em nêsperas, campos cheios de vegetais sob o céu de verão. Foi o que imaginei antes de adormecer.
E a sua figura. Sonhei ou não. Ela soprou balões de detergente. Fez-me uma pizza. Violou as leis de espaço e tempo. E encostei a cabeça no seu ombro, finalmente.

CZ in "Nomes mais ou menos engraçados para o sangue"